Sorte, suor e lágrimas. Respirando as 24 Horas de Le Mans

Estrutura de F1, tecnologia de ponta e boa dose de sorte são alguns dos ingredientes da prova de longa duração mais difícil do mundo

Fotos: Porsche | Texto: Henrique Neves

Receita da vitória. Pegue uma equipe com muito dinheiro. Adicione uma marca 18 vezes campeã. Recheie a gosto com um planejamento estratégico eficaz. E para terminar uma boa pitada de sorte. Misture tudo isso e espere 24 horas. Esta pronto um carro campeão.

Há muito tempo que as "24 horas" deixaram de ser apenas uma competição de carros. Ela está para Le Mans assim como a Fórmula 1 está para Mônaco ou a Fórmula Indy está para Indianápolis. Mas ao contrário destas duas corridas de carros, nas 24 horas, ser o mais rápido, não basta. A resistência é ponto fundamental para se vencer aqui. E é por isso que várias montadoras e fornecedores escolhem justamente essa prova para testar equipamentos que depois vão estar nos carros de linha. É a corrida onde o departamento de engenharia trabalha em conjunto com o de marketing.

Esse ano, na prova disputada em junho, mais de 258 mil pessoas estiveram presentes no circuito e a cobertura foi feito por nada menos do que 1.400 jornalistas credenciados.

Le Mans só é o que é por causa da tradição, da historia de seus pilotos e de suas máquinas. É a mais antiga e famosa prova de longa duração do planeta. O lendário filme "Le Mans" de 1971, estrelado pelo ator Steve McQueen é até hoje considerado um dos melhores de corridas e foi mais assistido pelos amantes do automobilismo do que pelos aficionados em cinema. Acidentes incríveis também ajudaram a divulgar a prova mundo a fora. Em 1999, duas Mercedes Benz levantaram voo em plena reta quando estavam próximos dos 400 Km/h. Esses dois acidentes não se comparam ao acontecido também com uma Mercedes em 1955 onde 78 pessoas morreram e outras 94 ficaram feridas no mais grave acidente da história do automobilismo mundial.

24 Horas de Le Mans

A primeira prova aconteceu em 1923 com 33 carros no grid e apenas dois pilotos por carros. Hoje são 60 carros com três pilotos que se revezam em cada um. Mais: todos os anos pelo menos 25 carros ficam de fora da prova por falta de lugar no grid.

O circuito é gigantesco. Tem 13.650 metros e passa por estradas que cortam a cidade. São quatro categorias (duas de protótipos e duas de carros de rua) e para sentar em um cockpit de uma pequena equipe um piloto tem que desembolsar cerca de um milhão de dólares. As equipes grandes, claro, só trabalham com pilotos de ponta, alguns vindos da fórmula 1 como os japoneses Kazuki Nakajima e Kamui Kobayashi e os brasileiros Nelsinho Piquet, Bruno Senna e Rubens Barrichello.

Desenvolver um carro de ponta e colocá-lo no campeonato de protótipos de longa duração, não custa menos do que 150 milhões de dólares por ano e o envolvimento de 200 pessoas por marca. 

O Porsche 919 Hybrid, por exemplo, foi amplamente reformulado para o campeonato de 2017. Quase 70% dos componentes do protótipo de Le Mans são novos. Isso diz respeito principalmente às áreas de aerodinâmica, chassi e motor de combustão. O híbrido desenvolve uma potência de cerca de 900 cv que vem de um V4 compacto de dois litros com turbo e dois sistemas de recuperação de energia diferentes. O motor de combustão movimenta o eixo traseiro enquanto o elétrico turbina o eixo dianteiro. A energia elétrica que vem dos freios dianteiros e do sistema de escape é armazenada temporariamente em uma bateria de íon de lítio refrigerada por líquido.

24 Horas de Le Mans

Na prova esperava-se uma revanche da Toyota que perdeu para Porsche no ano passado nos últimos minutos de prova. "Este não será um duelo somente contra a Toyota. O desafio mais difícil em Le Mans é a própria corrida. Você nunca deve perder o respeito por aqueles 5.000 quilômetros cobertos de dia até a noite em condições climáticas variáveis ??e a velocidades superiores a 330 km/h, enquanto ultrapassa constantemente os competidores. Não há garantia, as coisas podem acontecer a qualquer momento. Você só tem uma chance de ganhar o grande troféu em Le Mans, preparando-se rigorosamente com antecedência, trabalhando perfeitamente e então tendo uma corrida sem incidentes". Disse o vice-presidente da LPM1 da Porsche, Fritz Enziger.

Com a pole position, os melhores tempos e com três carros no grid, tudo caminhava para a primeira vitória da marca japonesa em Le Mans. Mas aqui, como no futebol, treino é treino e prova é prova.  A Toyota foi a grande decepção com todos os seus carros tendo problemas antes da metade da prova. O Porsche número 1 também parou por problemas mecânicos e a corrida caiu no colo do carro número 2 da trinca Earl Bamber/Nick Tandy/Brendon Hartley que depois de uma longa parada nos boxes, conseguiu voltar e só teve que administrar a corrida. Sem adversários de peso cruzou a linha de chegada para festejar o decimo nono título da Porsche em Le Mans levando toda a equipe às lágrimas nos boxes.  A emoção se explica: Primeiro por que é mais uma vez o coroamento de um ano de trabalho da equipe alemã. Segundo por que em Le Mans, tudo, mas tudo mesmo pode acontecer até a bandeirada final.

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