Aceleramos o fabuloso Ford GT

O novo GT da Ford leva o seu piloto de sorte de volta a Le Mans. Mas bem apertado...

Fotos: Marc Urbano | Texto: Aaron Robinson

No ano passado o chefe da Ford Performance, Dave Pericak, se encontrou ao lado de Edsel Ford II ao lado de um certo circuito rural francês que testemunhou 84 anos de glória, tragédia e ressentimento. "Você sabe", disse Ford, segundo a memória de Pericak. "Eu estava aqui 50 anos atrás com meu pai, quando vencemos. Agora estou com meu filho".

Quando você trabalha na Ford Motor Company, você trabalha para uma família. Pericak juntou um grupo de voluntários em um galpão trancado em Dearborn e trabalhou em seu tempo livre no "Project Phoenix" antes mesmo de ele ser aprovado, e me contou com um olhar distante: "Trazer aquele troféu de volta e entregar para aquela família, devolver o troféu mais desejado da história da família. Esse era o objetivo".

A tentativa do GT de celebrar a vitória da Ford nas 24 Horas de Le Mans de 1966 com uma vitória na categoria em 2016 começou de forma assustadora. Sob a forte chuva, um dos quatro GT, já penalizado devido ao excesso de peso e pressão, sofreu uma pane no câmbio logo antes da largada. Querendo estar por perto, o chefe de Pericak, o vice-presidente executivo da Ford e CEO Raj Nair, escorregou no pit lane e quebrou o cotovelo. Em meio à tensão, ninguém sequer notou.

Um ano depois estamos ao lado de outro circuito, o traçado de 3,5 km do Utah Motorsport Campus, perto de Salt Lake City, ao lado da versão de rua do Ford GT que será entregue a 250 clientes até 2021. Finalmente, depois da revelação surpresa em janeiro de 2015 durante o Salão de Detroit, depois de incontáveis capas de revista e coberturas cansativas, alguns poucos membros do quarto poder finalmente poderão pilotar o Project Phoenix.

Eu estou neste grupo, prestes a pilotar o primo-irmão do carro de Ronnie Bucknum em Le Mans! E diferentemente do GT3 e do McLaren, não haverá atualizações neste carro — ao menos não tão cedo. O GT é a mais pura história e entusiasmo da Ford condensadas contra todas as probabilidades e senso comercial em um carrinho Hot Wheels gigante de fibra de carbono que permanecerá raro para sempre e chamará a atenção. E eu vou pilotar esse carro. Em um circuito.

Ford GT

Ninguém tem mais sorte que eu, penso enquanto entro no GT, com suas portas abertas como a envergadura de uma água. Jogo minha perna direita para dentro, dou uma girada e… não. Não deu certo. Vamos tentar sentar na soleira elevada, jogando a perna por cima e… ops, bati minha cabeça na gaiola homologada pela FIA escondida atrás da forração do teto. Ok. Levanto de novo, perna direita para dentro, giro levantando o joelho esquerdo e quando minha perna esquerda perde a força, eu caio no banco e voilà. Estou dentro!

Como os bancos estreitos e verticalizados do GT não se movem (os pedais e a coluna de direção é que se ajustam), a maioria dos botões do carro está posicionada no volante retangular, assim você não precisa alcançar o painel esculpido em fibra de carbono. Este carro não é retrô como seu antecessor da década passada, que tinha uma cabine relativamente gigante perto desse; todos os dados vêm de telas digitais. A tela em frente ao motorista mostra a velocidade, o conta-giros e mensagens simples como “Porta do Motorista Aberta”. Um enorme botão anodizado no console central liga o V6 biturbo de 3,5 litros, e o seletor rotativo logo ao lado parece deslocado, como algo vindo de um Fusion.

MANEIRA DESAJEITADA

Uma ilustração realista do carro aparece na tela do painel quando você muda os modos de rodagem. Coloque o GT no modo track usando o seletor no volante, pressione o botão OK para confirmar e o carro repentinamente cai alguns centímetros, como se os mecânicos tivessem retirado os macacos do carro. Tire do track e o carro pula de novo, para cima.

De volta a Le mans no ano passado, a sorte continuou a desfavorecer a Ford, quando ela começou a disputar com a Ferrari a liderança na categoria GTE Pro. Um conector solto fez piscar as lanternas e faróis do GT que liderava a categoria e Sébastien Bourdais, um dos pilotos mais experientes da equipe, precisou encontrar o caminho no escuro. Nos intervalos para o café, Nair, determinado a ficar com seus colegas ao longo de toda a prova, se aproximou de Pericak e falou: “não consigo segurar uma xícara de café”.

Billy Johnson, que tinha apenas 29 anos quando pilotou o carro número 66 que terminou em quarto na categoria naquele ano, senta ao meu lado. Para um carro com mais de 4,5 metros, colocar duas pessoas dentro de um GT é como colocar dois edredons dentro de uma lavadora compacta. Como em um Lotus Elise, os bancos são espremidos dentro do monocoque de fibra de carbono, entre as largas caixas de ar estruturais. Você precisa tomar banho e usar um perfume suave, uma vez que você e seu passageiro vão desfrutar de uma intimidade que os usuários do Tinder apenas sonham em ter.

O simpático Johnson acena para a frente e entramos de forma ameaçadora na pista. Um imenso V6, especialmente com dois turbos, nem sempre ronca muito bem, mas este motor de 656 cv é diferente. Ele tem um uivo forte, crescente e tons rasgados do escape selando a conexão do carro com as pistas. Você pode até ouvir os turbos soprando, mas não pode ouvir nenhum espirro da válvula de alívio, o que o faria soar como um Mitsubishi Evo modificado.

Ford GT

Enquanto esquento os Michelin e aprendo o traçado, o GT parece leve e pronto para a diversão. Desenvolvido juntamente do carro de corridas ao longo de uns poucos anos, o GT de rua, com suas 250 peças de fibra de carbono, não tem aquele comportamento tudo ou nada dos carros de corrida. Ele roda muito bem em velocidades moderadas, com uma aceleração suave e progressiva e freios fáceis de modular.

Considerando a rapidez com que o carro foi desenvolvido, e que seu objetivo inicial era uma vitória em sua categoria em Le Mans, ele é surpreendentemente refinado e coeso. O câmbio de dupla embreagem e sete marchas faz as trocas rapidamente e não é possível detectar lag do turbo, embora o motor seja um pouco mais ríspido acima de 3.000 rpm até a faixa vermelha a 7.000 rpm.

Começamos a ganhar ritmo, Johnson me lembra o traçado da pista no circuito plano e às vezes confuso. A terceira e a quarta marchas estão bem aqui; você pode afundar o acelerador e inundar os turbos com os gases de escape sem torrar os pneus. A aderência dos pneus é obviamente enorme, e a rodagem não é tão dura quanto eu esperava. Apertando o ritmo notei um pouco de sub-esterço nas curvas mais fechadas. Também consegui colocar o GT de lado na saída de forma um pouco fácil demais. Será que ele é solto assim?

Johnson, ao meu lado, começa a me orientar. Você não dirige o GT como dirige carros menos potentes como meu velho Miata de corrida, que gosta de fazer curvas sob aceleração que assenta e estabiliza o carro. O GT tem tanta potência e um peso tão relativamente baixo de cerca de 1.480 kg, distribuídos idealmente (50/50) que sobrecarrega seus pneus dianteiros. Em mãos desajeitadas, ele se porta de maneira desajeitada.

Johnson me adverte para frear forte em linha reta, depois adotar o trail-braking ou mesmo aliviar o acelerador a caminho da tangente. O GT, uma vez desacelerando, agora quer nada mais que rotacionar sobre seu eixo como um portão pivotado em um poste. Você também pode sentir este efeito se aliviar o acelerador repentinamente ao entrar muito quente em uma curva. Mesmo em um escorregamento da dianteira o leme do GT irá avisar. Nas saídas é preciso ser paciente; afundar o acelerador cedo demais irá destracionar os pneus traseiros 325/30 à medida em que a pressão aumenta. Para ser rápido é preciso aprender a ser suave com o carro, exatamente como os profissionais. Se você não conseguir, ainda é possível curtí-lo, porque a perda de aderência é suave e os modos do controle de estabilidade permitem que você ande de lado sem correr riscos.

Em Le Mans o Ford GT lidera a categoria e está com uma mão no troféu. Nair e um supersticioso Pericak fizeram seu melhor para controlar a exaltação da equipe, como lembra o próprio Pericak. Então o Toyota LMP1 que liderava a prova quebra na frente dos boxes com apenas uma volta para o final. “Depois daquilo era possível ouvir um alfinete caindo no chão”.

Ford GT

Saio do autódromo e as rodovias de Utah dão as caras. O GT adora uma pista ondulada tanto quanto um circuito. O piloto parece plugado no Ford através da direção rápida e pelos pedais largos, e é fácil posicionar seu nariz nas curvas as quais contorna varrenado o asfalto com seus pneus traseiros. Pilotos de Ferrari, mimados pela direção perfeita, não vão reclamar.

Sem capacete para abafar o ruído, contudo, a cabine do GT é muito barulhenta, o escape em certas marchas e rotações é explosivo demais. Os bancos, com seu revestimento estufado mal reclinam e o passageiro tem um apoio para os pés que fica perto demais do banco para permitir uma posição confortável. O porta-malas é uma piada. e fica lotado com duas capas de chuva. O novo GT é um belo brinquedo para uns poucos felizardos, mas diferentemente do último GT, ele não será muito divertido em uma longa viagem.

Ao aterrissar em Detroit depois da corrida e das festas, Pericak teve que ajudar Nair a puxar sua mala do bagageiro do avião. Nair olhou para ele e perguntou “Vencemos Le Mans?”. Para Pericak a vitória e o carro de rua têm um gosto agridoce. “Tivemos muitas baixas, do braço de Nair, que acabou engessado, às famílias que não tiveram seus pais e mães por dois anos".

Este é um carro baseado no sentimentalismo. Claro, houve outras razões para o GT, como a criação de uma plataforma de testes de novas tecnologias e a recolocação da Ford no circuito do automobilismo internacional. Mas no fim das contas, era apenas uma família com muitos recursos que pensou que seria legal vencer as 24 Horas de Le Mans no 50º aniversário da surra na Ferrari. Com muito suor, algumas lágrimas e um pouco de sorte, eles conseguiram. Tudo isso está neste carro. É uma experiência singular. Vai além de ter sorte.

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