Choque de clãs: Honda Civic Type R encara Subaru WRX STI e Nissan 370Z

O Civic Type R, o mais novo pequeno-gigante japonês, enfrenta dois ronins de facções rivais

Fotos: Dw Burnett | Texto: Brendan Mcaleer

 

Guerreiros. No auge das batalhas do Japão feudal, os soldados rasos usavam a marca de seus clãs, enquanto um samurai de elite tinha sua própria insígnia. Foi assim que, séculos mais tarde, três ronins chegaram a uma solitária estrada rural com símbolos lendários: Z, STI e Type R. Foi este último, aliás, quem convocou esta exibição. Até então fruto proibido no lado de cá do Atlântico, o Civic Type R pela primeira vez o atravessa, carregando não apenas o fardo da expectativa dos fãs da Honda, mas também o orgulho de uma nação. E, antes que você pergunte: a marca estuda a possibilidade, mas é muito pouco provável que o Type R desembarque para o Brasil. Para tentar compensar, a Honda irá trazer em 2018 a versão Si, mais mansa, na configuração cupê. O fato é que, com o Lancer Evolution morto e enterrado, um novo Toyota Supra a alguns anos de distância, e um Mazda RX-9 sendo pouco mais que um desejo fervoroso, o Type R é o mais novo esportivo japonês acessível nos últimos anos (ainda que seja produzido na Inglaterra). É uma carga pesada para um hatch, especialmente um que seja, teoricamente, limitado pelo layout de tração dianteira de um carro econômico.

Para testar sua capacidade, dois desafiantes deram as caras no despertar do R. Nissan, Subaru e Honda são facções rivais, o daimiô dos tempos modernos, cada um despejando pilhas de crossovers em todo o mundo. Cada uma delas tem seu samurai, que representa o espírito marcial da marca. Com o 370Z, é o koryu, o estilo tradicional: tração traseira, motor dianteiro e uma história de quase meio século. O Z foi o primeiro esportivo japonês que os ocidentais levaram a sério. Depois, o sonho dos anos 1990 permanece vivo na Subaru com seu especial de rali, o WRX STI. Uma asa grande na traseira, um scoop no capô, tração integral e pintura azul para remeter à equipe de fábrica nos ralis. Tudo o que o dono precisa é de um boné da 555 e uma camiseta com a cara de Colin McRae estampada. E um pouco de lama nos para-lamas.

Três formas diferentes de colocar a potência no chão, três espadas empunhadas em nome da honra corporativa. No Hagakure, o guia de conduta dos samurais, o autor Yamamoto Tsunetomo escreveu: "Se você for morto na batalha, deve estar disposto a ter o seu cadáver encarando o inimigo." Que assim seja.

Honda Civic Type R, Subaru WRX STI, Nissan 370Z

PURA ENGENHARIA

O local é uma montanha-russa de mão dupla sinuosa e entrelaçada a Leste de Notre-Dame-de-la-Merci, no Quebec, Canadá. A qualidade do asfalto varia da suavidade à escamação, e há até mesmo alguns pedriscos nas tangências. As subidas cegas sobram. A região parece um campo de batalhas incomum para as máquinas do Leste, mas a província de relevo montanhoso, dos lagos interruptos e das Montanhas Laurencianas também é excelente para acelerar. Foi onde Gilles Villeneuve desenvolveu sua habilidade. O panorama está mais para uma corrida de canoas que para um lago koi, mas como campo de provas para golpes na direção e engenharia pura, é difícil encontrar lugar melhor.

O Type R se mostrou impiedoso nessa estrada. O carro aponta com precisão e imediatismo. A direção com relação variável fica mais direta à medida em que o ângulo de viragem aumenta. O ponto-chave da suspensão é um arranjo de eixo duplo. Não são braços sobrepostos como nos antigos Honda, mas uma torre com uma manga de eixo especial que modifica a geometria da direção para evitar o esterçamento por torque. Isso combinado ao diferencial de deslizamento limitado com engrenagens helicoidais, resulta em na capacidade do Type R em despejar potência a qualquer momento e em qualquer lugar. É preciso apenas um pouco de paciência com o acelerador na saída das curvas. Experimentei antecipar cada vez mais a retomada de aceleração, e o Type R simplesmente disparava todas as vezes. A sensibilidade inicial da direção não é muito viva, mas o Honda despacha os setores mais travados sem puxar a direção. Um carro torcudo e de tração dianteira não deveria ser assim preciso, mas este é.

Honda e torque são palavras que geralmente não se encaixam na mesma frase. Os motores de quatro cilindros da fabricante sempre foram obras-primas com limites de rotação estridentes, mas a maioria deles teria problemas para abrir a tampa de um vidro de conservas.

O coração do Type R, fabricado nos EUA, tem duas tradições americanas. Primeiro ele tem uma pegada forte em baixas rotações. Algo como 40,7 mkgf a 2.500 rpm. Isso causa uma ótima primeira impressão, como um aperto de mãos firme, e também torna o Type R mais tratável na pista se comparado com os Honda de outrora. A segunda tradição é subestimar a capacidade do carro. O motor 2.0 turbo tem 310 cv declarados, a 6.500 rpm. Testes independentes no dinamômetro mostraram o carro produzindo quase 305 cv nas rodas. Em algum lugar Soichiro Honda e o lendário trapaceiro Smokey Yunick estão se cumprimentando.

O Civic ficou quase irreconhecível com um spoiler, um scoop no capô, splitter frontal, respiros nos para-lamas, geradores de vórtice no teto, aletas nos para-lamas, e um escape com três saídas que imita o da F40. A Honda garante que cada um destes elementos é funcional, mas o efeito geral é de um pancadão visual. 

Ao menos o carro não roda como um modelo preparado. Apesar das rodas de 20 polegadas e molas dianteiras com o dobro da carga do Civic comportado, o Type R se sai bem mesmo nas estradas mais maltratadas de Montreal, desde que os amortecedores controlados eletronicamente estejam ajustados no modo Comfort. O crédito, em parte, é do monobloco do Civic. A Honda diz que o Civic hatch já é bastante rígido, e ele mostra bem isso, mas o Type R é ainda mais encorpado, graças à adoção de adesivos estruturais em vários pontos críticos.

Honda Civic Type R, Subaru WRX STI, Nissan 370Z

O LABRADOR

Os bancos com bastante apoio são confortáveis e o porta-malas não foi comprometido pela barra de amarração ou acessórios de valor duvidoso. Se ele não parecesse algo vindo de um filme de Velozes e Furiosos dirigido por Michael Bay, daria até para dizer que o Type R é sensato. Quando encontrei nossa equipe de foto, que chegou no STI, já estava tão impressionado pelo desempenho do Type R quanto por seu visual. Enquanto voltávamos para a estrada para fazer uma foto ao por-do-sol, o Subaru fez seu trabalho.

Ao arrancar com o STI, o ruído do cascalho sob os pneus e a batida descompassada do borbulhar do motor boxer colocaram um sorriso instantâneo na minha cara. Já tive alguns Subaru com a pressão do turbo aumentada, e não consigo deixar de adorar as características do STI acima de 4.000 rpm. A direção hidráulica dança nas minhas mãos logo nas primeiras ondulações da pista.

O Subaru STI é o labrador dos carros rápidos: divertido, um tanto imprevisível e adorável. Quando ele estava em guerra com o Lancer Evo, o Mit sempre era a melhor escolha para o asfalto, mas ele volta e meia parecia sem graça. O STI bebe muita gasolina, solta pipocos pelo escape e é sempre o mais contente na lama. Como eu disse, ele é um labrador.

Na perseguição ao Honda no laço de duas pistas, o STI parece um ou dois degraus abaixo em termos de tempo. Ele também não disfarça a origem humilde, com posição de pilotagem alta demais e uma rolagem considerável. A disparidade de potência parece muito maior que o único cavalo-vapor indicado pela ficha técnica, talvez porque o da Honda seja subestimado, mas também porque os 309 cv do Subaru precisam carregar 180 kg a mais e girar um sistema de tração integral. E o STI, embora tenha duas rodas a mais trabalhando, precisa de mais paciência com o acelerador. Ele também quer sub-esterçar mais; é preciso usar trail braking para fazê-lo girar.

Apesar de tudo isso, estou contente ao volante. O STI adora jogar duro. Abuse dos freios (que foram melhorados no modelo 2018) e deixe a tração integral lançar o carro na saída das curvas, pivotando com o pneu traseiro externo.

No final da tarde nossos editores David Zenlea e Kyle Kinard juntaram-se a nós em um 370Z coberto de insetos esmagados, depois de uma jornada de 13 horas na estrada. Eles não pareciam em boa forma, e o carro também não.

Honda Civic Type R, Subaru WRX STI, Nissan 370Z

MACACÃO EMPRESTADO

Pela manhã considerei dirigir o Z com mais cautela. Vestido com o macacão de Uma Thurman em Kill Bill, o 370Z Heritage Edition celebra o 50º aniversário da linhagem Z com um pacote de adesivos e faixas e absolutamente nenhum upgrade de desempenho. E ele é oferecido somente na configuração básica, que não tem o diferencial de deslizamento limitado e os freios enormes das versões mais caras. Ele é mais uma reprise do desajeitado 280ZX do final dos anos 1970 que uma homenagem ao 240Z. Quando o assessor da Nissan procurou um 370Z para nos emprestar, ele encontrou apenas um na frota de imprensa. Somente um. Para todos os EUA. E era este carro.

Ele pode ser negligenciado, mas como o único esportivo de nascença em nossa briga de facas japonesa, ainda que seja pouco equipado, o Z merece algum respeito. Se estivesse em um dos filmes de samurai da era de ouro de Akira Kurosawa, o Z talvez fosse interpretado por um Toshirô Mifune ranzinza, envelhecido, mas ainda poderoso. Decidi começar o dia com ele.

Veja – ou escute – o motor VQ do 370Z. O V6 de 3,7 litros e 336 cv não gira rápido nem é muito sonoro. Na metade do tempo ele soa como se tivesse se formado na Universidade Bovina. Mesmo assim, o Z chega junto. Na perseguição a Zenlea com o STI ao longo de um trecho de asfalto liso, o Nissan ligou seu controle de tração todas as vezes que tentei abusar nas saídas. Seu motor mais progressivo o torna tão rápido quanto o Subaru turbo. Quanto mais eu dirigia o Z, mais eu gostava – embora não tanto quanto Kinard. Aos 28 anos, o mais jovem do trio deveria estar ocupado publicando a traseira do Type R no Instagram. Mas em vez disso, precisamos arrancá-lo do interior antiquado do 370Z. "Nunca me senti tão envolvido como ao volante do Z", diz um Kinar entusiasmado. "Os pneus traseiros perdem a aderência antes dos dianteiros. É o equilíbrio que eu procuro em todos os meus carros." A familiaridade com o acerto traz bom ritmo. Acelerando o STI nos setores mais rápidos, eu olhava para trás e via o Nissan amarelo preenchendo o retrovisor. Esperava que a idade fosse pesar para ele. Errado.

Mas o destaque do dia é mesmo o Type R. "Este carro destroça todo o papo-furado sobre tração dianteira", diz Kinard. "Ele é o mais firme, o mais limpo, o mais simples e mais fácil de pilotar no contorno das curvas." Zenlea elogiou o câmbio curto e a direção direta: "Aquelas velhas qualidades da Honda mantém você envolvido mesmo quando não está no limite." Para mim, a conclusão é mais simples. O Type R parece e é mais rápido que seus rivais. Sempre que ele está na frente, ele abre vantagem em relação aos demais facilmente. Na imensidão do Quebec, o poderoso Honda derrama a primeira gota de sangue.

Honda Civic Type R, Subaru WRX STI, Nissan 370Z

PERPLEXIDADE NA PISTA

O autódromo Saint-Eustache é um circuito ondulado de 1,8 km construído nos anos 1960 e reformado recentemente. Fomos convidados por Eric Kerub e sua equipe Motorsports in Action, que usa o local para o desenvolvimento de seus dois McLaren 570S GT4 de pista, para acelerar o trio oriental naquele espaço.

A equipe também constroi os carros da Nissan Micra Cup, uma categoria monomarca baseada no nosso Nissan March. Quando a Copa é realizada em Saint-Eustache, é como uma versão sobre rodas de um combate em uma gota d'água. Talvez um dia um novo Villeneuve surja desta briga. Enquanto isso temos Jean-François Dumoulin, um experiente piloto da Fórmula Alantic e vencedor das 24 Horas de Daytona.

Apesar de estar acostumado com carros de corrida, J.F. engatilha um olhar perplexo para o Type R. A chuva da manhã molhou a pista e reduziu a tração, algo que deveria favorecer o STI em relação ao 370Z e o Type R. Mas os tempos de volta de J.F. estabeleceram o mesmo pódio que o teste na estrada. As voltas do Honda no circuito curto foram quase 3 s mais rápidas que as do Subaru e 5 que as do Nissan.

A consistência de J.F. no Type R é asustadora, mesmo considerando sua vantagem de estar pilotando em casa. Ao longo de três voltas rápidas ele cravou dois tempos idênticos até o milésimo de segundo. Sendo piloto experiente em endurance, ele elogiou o Civic, notando sua vontade de contornar curvas e como os freios ABS eram bem calibrados para a volta no molhado. Mais tarde topei com ele explicando a aparência do carro a alguns membros de sua equipe, mostrando como a tomada de ar no capô direciona o fluxo para os respiros nos para-lamas. (A equipe, formada por caras de meia-idade não estava muito convencida. Um deles acabou me dizendo de forma reservada que o Type R é o carro mais feio que ele já viu).

Honda Civic Type R, Subaru WRX STI, Nissan 370Z

A VEZ DO LÍDER

Quando a garoa se foi, deixamos os três carros soltos na pista. O que descobrimos na estrada foi reforçado: o STI subesterça, particularmente nos setores mais travados, onde ele tem a ajuda de seu sistema de tração integral. Mas ele fica melhor à medida em que você o atira nas curvas; o 370Z pede paciência, mas também confia na aderência dos pneus dianteiros. E o Type R apenas detona em todos os setores da pista.

Ele sai do oleoso cotovelo muito mais rápido que os outos dois, acelera mais forte na reta principal, carrega mais velocidade nos esses, e despeja mais potência nas saídas das curvas. Somente na chicane da reta oposta ele perde um pouco de tração – o Z rotaciona com mais vontade no meio das curvas e o STI agarra sua saída mais rapidamente.

Nas últimas voltas estou colado no para-choques do 370Z com o Type R, mantendo-se por perto para uma disputa dramática. Kinard, no Nissan, está trabalhando duro para ganhar velocidade, apesar dos pneus quentes e dos freios superaquecidos. No Civic, reduzir a diferença é apenas uma questão de esmagar o acelerador. O Z balança sob frenagens fortes, joga para a direita depois escapa em uma pequena derrapada. O pneu dianteiro toca a borda da pista e joga uma nuvem de poeira na grade do Type R. Parece um morde-e-assopra.

O Z conseguiu se manter fiel à sua linhagem, que remete ao nascimento dos esportivos japoneses, mas já está em seu ocaso. Como Tsunetomo observou em seu tempo, a era dos samurais dedicados talvez esteja chegando ao fim.

Se você considerar estes carros como membros de uma irmandade de combate, em vez de combatentes solitários, o Honda leva o brasão de seu clã para o futuro. Nem o 370Z nem o STI conseguem alcançá-lo na rua ou na pista.

Seus sashimonos ainda não tocam o chão, mas eles sabem onde está o futuro. Isso para não dizer que os dois lutaram de forma desonrosa. O 370Z, em especial, veio com uma espada enferrujada – sem um Supra ou um RX-9 para forçar seu desenvolvimento, a Nissan investiu em outras áreas. Mesmo assim ele segurou o ritmo dos dois jovens e se garantiria muito bem com um dono habilidoso e alguns upgrades.

Quanto ao STI, guardem o que estou dizendo: quando ele for substituído, certamente por algo mais rápido e mais tecnológico, sentiremos a falta desse carro. Sim, o flat-4 da série EJ é antigo o bastante para ter sido usado por Tsunetomo-san, e o STI está na casa dos 300 cv desde que Ja Rule fazia sucesso, mas ele é um motor que as preparadoras independentes conhecem intimamente. A direção hidráulica conversa com o motorista, bem como o sistema mecânico de tração integral. Até mesmo o interior de plástico faz parte do charme do STI.

Mas é o Type R que lidera a briga agora. Se a indústria japonesa tivesse que escolher um único modelo para brigar com a fúria do Ford Focus RS e com a polivalência do Volkswagen Golf R, a valentia deste Civic é a escolha certa. Ele consegue usar a tecnologia para sobrepor qualquer desvantagem da tração dianteira e mesmo assim não isola o motorista do que está acontecendo. Ele é rápido nas mãos de um amador e se torna uma verdadeira arma nas mãos de um profissional. Uma-jirushi: a bandeira do comandante, significa não apenas um vencedor, mas o líder de um batalhão. O mundo se une para desafiar a linhagem esportiva do Japão. Feio como um pecado, rápido para diabo: o Civic Type R está pronto para defender a honra da Terra do Sol Nascente. 

Honda Civic Type R, Subaru WRX STI, Nissan 370Z

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