Teste Kwid: aceleramos a novidade da Renault

Com preço inicial de R$ 29.990 e fila de espera, Renault Kwid corta custos e soma pedidos

Fotos: Bruno Guerreiro | Texto: Raphael Panaro

Custo. Perdi a conta de quantas vezes essa palavra foi repetida pelos homens da Renault durante a apresentação técnica do Kwid (leia-se cuid). Em tempos de crise, o custo, ou melhor, a redução dele, é o lema do inédito carro que chega para substituir o finado Clio e ser a base da pirâmide da marca francesa no Brasil. Nas próximas linhas você vai ver como a Renault conseguiu lançar o Kwid por R$ 29.990 na versão de entrada, a Life, e como anda o subcompacto de linhas simpáticas e aparência robusta. Além do preço que é tão atraente quanto a garota-propaganda Marina Ruy Barbosa, a aposta para se tornar um hit de vendas é a economia de combustível e o slogan o SUV dos compactos.

O preço, vale lembrar, é anunciado pela Renault como de lançamento e com o tempo pode sofrer reajuste. Mas a estratégia deu resultado. A marca fez duas pré-vendas do modelo e se surpreendeu com os números: mais de 40 mil interessados se cadastraram para receber notícias em primeira mão do modelo.

A história do Kwid começa lá em 2014 com o conceito de mesmo nome apresentado no Salão de Nova Delhi (Índia). O objetivo era destacar o compromisso da Renault com os novos mercados, como o país asiático. Um ano depois o Kwid surge de forma definitiva (bem diferente do protótipo, diga-se) e começa a ser vendido na Índia.

Renault Kwid

MODA

Índia, a propósito, era palavra proibida na apresentação técnica do Kwid no Brasil. A cada menção ao modelo indiano – do qual o brasileiro bebe na fonte (de canudinho) – notava-se certo mal estar entre os executivos da marca. A Renault bate na tecla que o Kwid Made in Brazil tem pouquíssimo a ver com o equivalente asiático. Lá o carrinho surgiu como alternativa às predominantes motocicletas e riquixás. Estreou com motor 0.8 litro e sem airbags ou freios ABS. Segundo a Renault, somente parte da plataforma e do design são comuns aos dois modelos. Ainda de acordo com a fabricante, 80% das peças do carro nacional são desenvolvidas especificamente para ele, da estrutura e características mecânicas, passando por equipamentos de conforto, conectividade e, principalmente, segurança. Mas, vale lembrar que 40% dos fornecedores são, sim, indianos. E essa é uma dicotomia que não será desfeita.

O Kwid que sai do Paraná é feito sobre a Common Module Family A (CMF-A), plataforma modular global da Aliança Renault-Nissan. A letra depois da sigla indica o tamanho do veículo. No caso A é para compactos. O Kwid é o segundo modelo a usar essa estrutura – o primeiro foi o Datsun redi-Go.

Ocorre que a demanda por segurança no Brasil – e a repercussão negativa do resultado do Kwid indiano em testes de impacto – fez a Renault ligar o alerta. Aqui, a CMF-A é reforçada com 30% de aços de alta resistência na composição. Outra medida da marca é ofertar quatro airbags e duas fixações Isofix para cadeirinhas infantis desde a versão nudista. Alerta visual e sonoro do cinto de segurança, além do pré-tensionador também completam o pacote aplicado no Brasil.

A preocupação se reflete na balança. Com as mudanças, o Kwid brasileiro é 120 kg mais pesado que o indiano – 660 kg contra 780 kg. Ou 798 kg na versão mais cara. O carro vai passar pelo crivo do Latin NCAP e os resultados do teste de colisão sairão até o fim do ano.

Renault Kwid

290

A Renault afirma que o Kwid é o SUV dos compactos ou primeiro SUV compacto urbano. SUV? Bem, ao menos o apelo de marketing é chancelado pelo InMetro, que homologa o modelo de acordo com suas definições de utilitário, que passam por altura livre do solo e ângulos de entrada e saída. E ele impressiona nesses quesitos. São 18 cm de distância do chão, valor maior que o do Honda HR-V, por exemplo, que tem 17,7 cm. Se pegarmos modelos da própria Renault o número continua a surpreender: 18,5 cm do Sandero Stepway e 21 cm do Duster, um SUV como entendemos por SUV.

A chancela continua nos 24º de ângulo de entrada e 40º de saída. Bem mais que os 23º e 31º, respectivamente, do Captur, que fica a 21,2 cm do solo. Bom para vencer valetas sem deixar pedaços do para-choque. Neste texto, no entanto, você não vai ler as palavras SUV ou utilitário em referência ao Kwid. Vamos tratá-lo como hatch. Ou  subcompacto.

As dimensões são parecidas com as do Volkswagen Up. O Kwid tem 3,68 metros de comprimento, 1,59 m de largura, 1,47 m de altura e 2,42 m de entre-eixos – 1 cm mais curto, 5 cm mais estreito e 3 cm mais baixo que o VW. A distância entre os eixos é a mesma.

Só que a fita métrica parecida com a do Up não é necessariamente uma coisa boa. O Kwid é pequeno. Quem vai de passageiro no banco da frente fica com o ombro encostado na coluna B assim que a porta é fechada. O espaço traseiro não é muito diferente. Dependendo da regulagem do banco do motorista, é muito difícil se acomodar no banco imediatamente atrás. O que sobra é altura para a cabeça – mesmo se você tiver 1,80 m. Honesto também é o porta-malas: 290 litros.

Renault Kwid

BULÍMICO

Qual a mágica para o Kwid custar exatos R$ 29.990? A primeira resposta é fácil: a falta de equipamentos. O hatch é tão pelado que ia se sentir à vontade nos bastidores de um desfile de moda. A versão de entrada Life é desprovida de ar-condicionado, travas e vidros elétricos, computador de bordo ou direção assistida. Nem o conta-giros se salvou. O limpador dianteiro abrange todo o para-brisas, mas tem palheta única – atrás não existe.  A lista de série engloba apenas pré-disposição para rádio com dois alto-falantes, desembaçador do vidro traseiro, ajuste interno dos retrovisores, maçanetas e capa dos retrovisores preta, abertura interna do porta-malas e ajuste de altura dos cintos de segurança, além dos quatro air bags e do Isofix.

O modelo ainda ajuda o motorista economizar combustível com indicador de troca de marchas no painel. Luzes verde, amarela e vermelha também indicam se seu modo de condução é eficiente. Nos próximos meses o Kwid Life terá como opcionais ar-condicionado e direção elétrica. A Renault só não disse quanto o pacote vai custar.

Na versão intermediária Zen as coisas começam a melhorar. Menos o preço, que sobe para R$ 35.390. Aí o modelo ganha ar-condicionado, direção elétrica, travas elétricas e rádio com entradas USB e auxiliar. Os vidros elétricos dianteiros têm os botões localizados no console central. Objetivo é economizar na fiação até as portas.

Com R$ 39.990 no bolso você pode levar Kwid Intense (esse aí das fotos) para casa. Ele vem com retrovisores elétricos, faróis de neblina cromados, abertura elétrica do porta-malas, chave canivete e detalhes de acabamento diferentes no interior. A Renault oferece ainda o Pack Connect que adiciona a central Media NAV 2.0 com tela tátil de 7”, GPS integrado e câmera de ré. As calotas, principalmente nessa versão, têm um acabamento em cinza antracite e são chamadas de flexwheel. Tudo para se parecer com rodas de liga leve de 14”, que não são oferecidas em nenhuma versão – só como opcional.

Outras economias passam despercebidas, mas fazem diferença na conta final. Os bancos são inteiriços, ao melhor estilo VW Up, já que encosto de cabeça separado demanda mais grana. Não há luzes no porta-malas. As rodas são fixadas por três – e não quatro – parafusos. No passado outros carros adotaram a solução que não víamos há tempos. A Renault afirma que a sustentação de três parafusos não interfere na distância de frenagem ou na segurança do carro, ao contrário dos discos de freios sólidos, e não ventilados, que podem fadigar mais rapidamente em condições extremas.

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A redução de custos, claro, chega ao motor. O 1.0 flex da família SCe é mesmo que estreou recentemente sob os capôs de Sandero e Logan. No Kwid é igual, mas diferente. O Energy Smart Management (ESM), que controla a carga da bateria e proporciona maior eficiência no consumo e menor emissão de gases poluentes não está lá. As quatro válvulas por cilindro, duplo comando e o bloco de alumínio continuam. A artimanha está no cabeçote sem comando variável na admissão e escape – encontrado nos Renault com etiquetas de preço mais altas.

Essa simplificação influencia diretamente na potência e torque do subcompacto. Influenciar aqui se traduz em números mais acanhados: 66 cv/70 cv a 5.500 rpm e 9,4/ 9,8 mkgf a 4.250 giros com gasolina e etanol, respectivamente. No Sandero e Logan, o motor produz 79/82 cv e 10,2/10,5 mkgf.

Não se deixe levar, contudo, pelos frios dados da ficha técnica. Os 70 cv aliados ao bulímico peso dão atitude ao novato. O carrinho mostra disposição na cidade e não perde o fôlego na estrada. Em nosso teste de pista, o Renault precisou de 13,9 s para atingir os 100 km/h. A SG1, nova transmissão manual de cinco marchas produzida no Chile, tem comportamento amistoso. Os engenheiros despistaram, mas é questão de pouco tempo para o modelo ganhar uma versão com o câmbio automatizado Easy R. No vai e vem do preço do combustível, o Kwid não vai ser tanto admirado pelos frentistas. Nas nossas medições ele registrou médias, com etanol, de 9 km/l na cidade e 12,5 km/l na estrada. Com gasolina, essas marcas sobem para 12,9 km/l e 17,9 km/l, este último um número bem respeitável.

Com a corrente de distribuição no lugar da tradicional correia, a marca ainda diminui os gastos com manutenção. Aliás, o carrinho da Renault é o mais barato nesse quesito frente a Mobi e Up. Na versão de entrada as revisões até 60 mil quilômetros custam R$ 2.215 no total. Nas demais configurações, o preço sobe pouco: R$ 2.449 – com mão de obra inclusa.

Renault Kwid

BRILHANTE

Por fim, como é o convívio com o Kwid? Bom, a posição de condução é alta. O banco não tem regulagem de altura e poderia ter mais área de apoio para as pernas. No intuito de economizar, o isolamento acústico filtra com eficiência questionável os ruídos do motor, que invade a cabine em altas rotações. Não estranhe se você também ouvir claramente o barulho do vento. Já a suspensão tem eixo rígido na traseira, mas se eu não contasse você nem perceberia. Na versão Intense a cabine ganha alguns refinamentos de acabamento, como detalhes no volante, saídas de ar e moldura preto brilhante da central Media Nav com tela de 7". A última pergunta que se faz é: todo esse esforço da Renault faz Kwid melhor que os concorrentes VW Up e Fiat Mobi? A resposta você confere em breve aqui na C/D.

Teste Kwid: confira os números da novidade da Renault

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