Up, Kwid e Mobi: descubra qual carro é o mais econômico

Fotos: Bruno Guerreiro | Texto: João Anacleto

Ter um carro, pelado, sem opcionais é como amar sem beijar. Talvez você só esteja largando as dúvidas de um carro usado, ou de gastar sola de sapato, por algo menos dolorido. Mas talvez seja o amor da sua vida, e você sofre por não querer admitir. Nesse universo espartano, as opções já foram mais queridas pelos brasileiros. Modelos de entrada há tempos não vivem dias de glória. Chery QQ, Fiat Mobi e VW Up somaram 44.747 unidades vendidas no primeiro semestre, pouco mais da metade das vendas do líder, o Chevrolet Onix (83.236 emplacamentos). Uma clara amostra de que brasileiro só gosta de sofrência no rádio do carro; afinal, o Chevrolet é um modelo bem mais ajeitado e equipado perto dos três.

Mas e quem tem entre R$ 30 mil e R$ 40 mil para gastar: como faz? Geralmente, este cliente gasta mais dinheiro para ter quase a mesma coisa. Pensando nessa demanda reprimida, e em um momento de crise que parece interminável, a Renault oferece o Kwid das fotos ao preço de R$ 29.990, na versão Life. Modelo que devolve ao brasileiro a possibilidade de entrar no universo dos zero-km por menos do que os R$ 34.210 pedidos pela Fiat por um Mobi Easy, ou os R$ 37.990 por um VW Up na versão Take. E isso é um achado! Não à toa mais de 10 mil pessoas fizeram a reserva de uma das três versões do compacto, com o famoso "milão" em três vezes no cartão. Tacada de gênio? Veremos.

Em comum eles têm pouco a oferecer. Não há ar-condicionado, direção hidráulica nem travas ou vidros elétricos de série. Aqui você não será amado de verdade, e não terá quase nenhum respeito na cidade. Mas se a grana só dá para isso, saiba  qual desses ícones da sofrência automotiva é capaz de não sair da sua cabeça.

ECONOMIA DO FIAT MOBI 

O relógio está girando e esse Mobi Easy aqui perdendo tempo. Se ele não custasse R$ 34.210 dava até para decidir dar uma volta na cidade com ele, mas o preço é um impeditivo quando você analisa o carro com mais profundidade. Começa
pelo motor 1.0 EVO com quatro cilindros que deve em eficiência para a dupla desafiante, tanto no consumo quanto em desempenho. Ele foi o que mais bebeu, com média PECO (55% na cidade e 45% na estrada) de 10,4 km/l e ainda ficou na década passada na hora de acelerar. Fez de 0 a 100 km/h em 16,4 s, quase 3 s atrás do novato da Renault. “Ah, mas o Kwid é pesa só 780 kg”, poderão dizer os fãs do Fiat. Balela. O Up pesa 922 kg e não desafina tanto na hora de acelerar. Fez de 0 a 100 km/h em 14,6 s. Esse motor é tapa, não é beijo.

ECONOMIA DO RENAULT KWID


Você vai me odiar, mas eu vou te contar que esse Kwid merece o seu dinheiro e um canto no seu lar. Ele convence de verdade, mas a culpa foi minha. Tenho uma queda por carros, digamos, irritados. O Kwid está muito longe de ser um
esportivo, mas a esperteza que ele acumula com a junção do peso baixo com um motor de 70 cv, mais o pigarro que o três-cilindros tira da garganta a cada acelerada me pegam de jeito. 

O 1.0 faz de 0 a 100 km/h em um tempo decente para quem custa R$ 30 mil. Seu torque de motocicleta – são 9,8 mkgf – chega à plenitude só a 4.250 rpm, mas ele mantém a velocidade sem asma em baixas rotações. Eu nunca pensei que um dia ia escrever isso de um carro nacional barato. Desde o Fiat Uno Mille Brio.

Pode ser que você ache que o Kwid é um carro indiano reformado e sem limpador do vidro traseiro e de baixa qualidade. Mas não viva do achismo. Não foi só pelo desempenho que ele quase venceu a disputa. Há aqui uma questão social simples e didática. A proposta de um carro tão acessível sem um decréscimo estupidamente descarado de qualidade merece ser louvado em tempos de crise.

Onde há menos material há, portanto, menos custo. Nas rodas são apenas 3 parafusos, no para-brisa apenas uma palheta, não pense em ver um lavador no vidro traseiro e as borrachas internas das portas são feitas de uma única peça que também veda a parte externa. Seus assentos vêm da Índia e são mais finos do que você está acostumado a ver, os freios têm discos sólidos e o cabeçote do 1.0 SC e perdeu o comando de válvulas variável e o regenerador de energia. Isso também ajuda na redução do peso (são apenas 780 kg), outro fator preponderante para as impressões ao dirigir elogiáveis e para a média de consumo de 10,8 km/l.

ECONOMIA DO UP

Uma vitória suada de um carro que não tenho coragem de desgostar. Lembro do lançamento em 2014. Era a primeira vez que alguma fabricante havia feito um carro 1.0 com preço na casa dos R$30 mil, que só parecia um carro de R$ 30 mil antes você dirigi-lo. Ele tirou aquele medo bobo de comprar um carro barato. Mas não foi isso o que aconteceu, e as vendas nunca decolaram. Talvez porque você não o experimentou. Foi assim comigo também. Mas na hora que eu guiei, foi bem melhor que imaginei. Se soubesse tinha feito antes.

A lista de equipamentos também se equivale à do Kwid, mas ele tem lavador do vidro traseiro, suporte para celular e e entrada USB para carregamento, ausentes no Renault, mas traz apenas dois airbags,  em vez dos quatro presentes no Kwid. Talvez porque ele não precise de mais dois e o Renault, sim. Outros equipamentos valorosos nesse deserto de mimos são a regulagem de altura do banco do motorista e a chave no estilo canivete de série. O espaço interno no geral é o
melhor dos três. Mais largo do trio, ele só perde para o novato quando você mede a altura do assento ao teto no banco traseiro: aqui há 95 cm, no Kwid são 99 cm.

À exceção do disparate na qualidade de construção, nível de segurança e equipamentos extras, o Up é equilibrado com os rivais em desempenho. Com um motor 1.0 capaz de gerar 82 cv e 10,4 mkgf a apenas 3.000 rpm ficou um pouco atrás
do Kwid, no meio do caminho entre ele e o Mobi. Mas o torque que aparece cedo faz uma boa diferença quando você está na estrada, a partir dos 100 km/h. Ele consegue retomar velocidade mais rápido que os rivais quando se está em quinta marcha, algo que só o Renault faz com alguma decência.

A suspensão transmite mais qualidade, definitivamente não parece que se está no carro mais barato de uma marca. Se você compará-lo ao Gol ou ao Fox de mesmo motor, vai ficar na dúvida sobre qual faz você sofrer menos. E aposto algumas fichas que escolherá o Up. O consumo médio é de 10,9 km/l e as revisões até 60.000 km passam pouco dos R$ 3 mil. Se o seu estilo é a sofrência brasileira, prepare-se para mudar. O Up é um clássico mundial.

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